sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Garota Má

Annie fugiu mais uma vez, outra noite. Levei algumas horas para achá-la no parque, indo para frente e para trás no balanço sem ligar para o mundo, como se ela tivesse todo o direito de estar ali. E ela tinha tingido o cabelo outra vez, dessa vez estava loiro. Eu não queria criar uma confusão ali com todas aquelas pessoas olhando, então peguei ela do balanço e a arrastei para casa chutando e gritando como uma lunática. Foi humilhante. Eu tive que sorrir e encolher os ombros como se não estivesse incomodada enquanto todas as pessoas olhavam. Assim que chegamos em casa, eu a coloquei no quarto e ela ficou ali sentada na cama, chorando e chorando. Do jeito que estava eu não tive coração para gritar com ela por ter fugido. Acho que esse é o verdadeiro problema, essa falta de disciplina. Nunca fui boa em ser durona ou razoável. Estou sempre indo longe demais de um jeito ou de outro. 

Há alguns meses quando ela veio para cima de mim com uma faca de cozinha. Por um minuto eu realmente pensei que ela tentaria me machucar, o meu próprio anjinho. Mas depois ela apenas deitou ali em meus braços tão quieta, me deixando acariciar seu cabelo e cantar uma canção de ninar, como se nada tivesse acontecido. 


Houve aquela outra vez quando ela tentou destruir minha coleção de bonecas. As minhas bonecas são frágeis, e Annie estava brincando com tanta violência como se quisesse quebrá-las. Eu amo essas bonecas: elas me lembram de quando tudo era fácil, quando eu não estava presa nessa casa todos os dias com as birras de Annie e a depressão de Bill. Eu fiquei com raiva e bati nela. Eu estava tão envergonhada que quando ela correu, eu não fui logo atrás dela. Eu fiquei ali, chorando e me sentindo como a pior mãe do mundo. Depois disso tentei ser mais gentil, mais compreensível. Então ao invés de me irritar com Annie, eu a deixei ficar no quarto e fui preparar jantar para ela. 

Liguei a TV bem alto para não ouvir a algazarra que ela estava fazendo. Às vezes ela faz tanto barulho, e isso me deixa com muita raiva, o modo como ela quebra as coisas como se não ligasse para mais nada. Uma vez dei um cachorrinho para ela, mas ela nunca tocou nele, como se tivesse medo. No dia que decidi leva-lo de volta para o pet- shop, ele desapareceu. Encontrei Annie no quintal, segurando uma colher de pedreiro, junto de uma pilha de terra. Eu a ajudei a se limpar e nunca mais toquei no assunto.

Fiz a sua comida favorita, macarrão com queijo, esperando que isso pudesse acalmá-la. Mas assim que abri a porta ela esbarrou em mim, tentando passar. Eu quase derrubei a comida por todo o lugar enquanto lutava com ela. Ela tinha aquele olhar selvagem, como um animal. Isso me assustava, ficar sozinha com ela enquanto ela estava assim. Coloquei a comida na mesa e empurrei-a gentilmente para a cadeira. “Eu fiz do jeito que você gosta”,  falei com ela, sorrindo e tentando não passar o medo que estava sentindo. Ela olhou para mim como se não entendesse uma palavra do que eu estava falando. “Vai comer um pouco?” “Eu não quero”, ela disse. Sua voz soou estranha, diferente do que eu já tinha ouvido antes. Tentei não estremecer. Não queria irritá-la. “Por favor Annie, estou muito preocupada com você”. “Esse não é o meu nome”. Ela gosta de mudar o nome as vezes.Isso me preocupa. 

Um dia ela é Beth, no outro é Irene. Assim como o seu cabelo, ela muda sempre que foge. Eu fico tão assustada quando não consigo encontrá-la, e a polícia não pode ajudar por que eu não sei qual será a aparência dela ou como vai se chamar. “Querida, eu adoraria que você comesse um pouco. Só um pouquinho, por favor, pela mamãe”. E então ela disse, com o seu olhar mais cruel, “Você não é a minha mãe”. Isso machuca muito. É como uma facada no coração. 

Lágrimas brotaram em meus olhos antes que eu pudesse contê-las, então sai do quarto. Eu ouvi ela se jogar na cama, suas unhas arranhando como garras na parede. Quando olhei de volta, ela estava agachada em um canto, se balançado para trás e para frente. Me encarando com aqueles olhos de animal selvagem. “Eu te amo Annie”, eu disse com o máximo de seriedade que pude reunir. “Mas as vezes não sei como lidar com seu comportamento". 

Ela gritou. Aquele grito longo, alto, ecoando, como uma sirene. Sua boca estava escancarada, mas seu rosto estava branco. Tapei meus ouvidos, sai do quarto e fechei a porta. Eu tinha que me recompor antes de ver o Bill. Ele tem estado tão estranho ultimamente, não quero mais preocupá-lo. Peguei um Segundo prato de macarrão e trouxe para o nosso quarto. É onde ele passa todo o tempo, deitado na cama. “Querido, fiz o jantar”. Ele não respondeu, nem mesmo virou para olhar. Recolhi o prato do café da manhã, a comida estava intocada, e pus o prato do jantar ali onde ele poderia alcançar. “Annie está de volta. Eu a encontrei no parque. Ela está tendo uma crise no quarto”. Ele não deve ter ouvido os gritos. 

Eu sempre tentei mantê-la quieta, dizendo que o papai precisava dormir, mas ela nunca me ouvia. Às vezes eu pensava se ele conseguia ouví-la. Ele nunca levantou para ver o que estava acontecendo. Ajoelhei-me ao lado da cama e olhei em seus olhos. Ele me encarou de volta, sem dizer nada. Ele esta assim desde que Annie fugiu pela primeira vez. Eles estavam juntos sozinhos. Então ela fugiu, e ele parou de falar. Ele deitou na cama e nunca mais levantou. Perdeu o emprego, perdeu muito peso. Ele mal parecia o homem com quem casei. Eu o beijei na testa e sai. Enquanto fechava a porta atrás de mim, pensei tê-lo visto levantar-se, mas acho que foi minha imaginação.

Annie continuou com aqueles gritos  horríveis por horas. Fiquei na sala, sentada sozinha em nosso grande sofá de três lugares. Liguei a TV o mais alto que pude, liguei o rádio, o liquidificador, tentei de tudo para abafar os gritos. Era como pregos sendo enfiados em meus ouvidos, como aranhas escalando meu pescoço, como água gelada batendo em minhas pernas. Finalmente parou. Pensei que ela tinha desmaiado, mas então os arranhões começaram. Isso era quase pior. Começavam rápidos, em ritmo, e ficavam lentos com o passar do tempo. Às vezes Annie vazia um barulho, como se tivesse chorando outra vez. Comecei a me preocupar que ela estivesse se machucando, mas eu não conseguia tirar da cabeça aquela coisa horrível que ela me falou ou aqueles olhos selvagens. Apenas fiquei sentada na sala tentando dormir. 

Não sei como as coisas acabaram assim. Já pensei em leva-la ao doutor, mas eles sempre olham para ela com um olhar estranho. É por isso que não me atrevo a ir ao mesmo doutor duas vezes: Temo que eles possam estar pensando em tomá-la de mim, ou fazer alguma coisa ruim com ela. Pensei em chamar um padre. Sei que pode soar estranho, mas do jeito que ela fica às vezes, como se não me conhecesse, isso me assusta muito. E chama por pessoas que não estão ali, grita nomes que não sei se são de pessoas reais. E então houve aquele incidente com a faca. 

Não foi a primeira vez que ela tentou me machucar. Às vezes ela contrabandeia algumas pedras para dentro de casa e tenta me acertar pelas costas. Quando ela fica muito violenta ela me morde e me arranha. Algumas vezes chego a pensar se ela é mesmo a minha garotinha ou alguma outra coisa, usando seu rosto, me assombrando. Depois de muito tempo os arranhões pararam e tudo ficou silencioso. Suspirei aliviada. A casa é tão legal quando está tudo quieto. 

Olhei para o relógio e mal pude acreditar o quanto já estava tarde. Ela deve ter finalmente caído no sono. Quando olhei para a porta do quarto, pude ver pelas frestas que a luz ainda estava ligada. O mais silenciosamente que pude, fui na ponta dos pés. Eu daria uma olhadinha, desligaria a luz. Talvez lhe desse um beijinho de boa noite. Abri a porta só um pouquinho, mas isso bastou para ela me empurrar, me derrubar, e sair correndo. “Annie, pare!” gritei. Ela estava correndo direto para o meu quarto, fazendo tanto barulho que tive certeza que acordaria o Bill. Ela passou pela porta e eu fui atrás. Mas lá dentro ela apenas ficou empé, olhando para a cama. “Querida, o papai esta dormindo”, sussurrei. Ela começou a gritar outra vez, mais alto que antes. Ela apontou para Bill e gritou mais e mais. Eu tentei calá-la, tentei dizer que ele estava dormindo. Mas ela não iria parar. Ela gritou mais e mais. O som me perfurava, destruindo cada nervo em meu corpo. Tapei meus ouvidos e arranhei meu rosto, e logo estava gritando também, tão alto quanto ela. Peguei-a em meus braços e logo estávamos gritando juntas. 

Eu a abracei o mais forte que pude, apertando-a contra mim, desejando poder fazer alguma coisa, qualquer coisa para fazer isso parar. Segurei ela tão perto que pude sentir as batidas do seu coração, estavam tão leve e silenciosas, crescendo mais e mais. Ela parou de gritar, ali em meus braços, e logo parei também. Cai de joelhos, segurando minha garotinha, acariciando seus cabelos. Não sei o quanto ficamos ali. Estava tão escuro no quarto. Olhei para Annie, mas afinal não era a Annie. Eu estava segurando uma das minhas bonecas. Eu devo ter dormido, segurando ela, então ela conseguiu escapar e colocou uma boneca no lugar. Era uma boneca engraçada, uma que não me lembro de ter. Tinha um lindo cabelo loiro.

Me senti tão boba, segurando aquela boneca por tanto tempo. Levantei e a levei para o closet onde eu guardava as outras bonecas e a deitei ali. Tinha tantas bonecas, e eram tão grandes, já estava começando a ficar sem espaço. Mas eu não queria me livrar delas. Eram tão lindas, bonecas adoráveis. Elas pareciam diferente, mas cada uma me lembrava da Annie. Procurei pela casa, mas ela já tinha partido. Ela deveria estar muito zangada, para fugir duas vezes em apenas dois dias. 

Peguei meu casaco e me preparei para procurar por ela outra vez. Antes de sair, voltei para o quarto para verificar o Bill. De alguma forma todo o barulho não o tinha acordado. Eu toquei em sua testa, mais parecia tudo normal. Meus dedos grudaram um pouco, tinha um tipo de substância verde e engraçada neles. Limpei na cama e disse adeus. Estava um dia lindo lá fora. Respirei fundo o ar fresco. Eu amo a nossa casa, mesmo que de vez em quando eu sinta um cheiro ruim por lá. Em algum lugar à distância, ouvi o som de crianças rindo. Era tão bom ouvir os risos depois de todo aquele barulho a noite passada. Talvez Annie também ache isso. Talvez ela tenha ido brincar com os filhos dos Driscoll.

Segui os risos...

Adaptado de Creepypastabrazil.blogspot.com.br

2 comentários:

  1. Eita mulher maluca... Esttou meio
    grogue pra comentar...

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  2. tem continuação
    porque eu to boiando.....

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