terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Balsa - Stephen King (Parte 2)

Então, saiu da água e o ar frio mordiscou-lhe a pele, mordiscou-o ainda com mais vigor do que a água, quando nela mergulhara.

— Ohhhhhh, merda! — gritou, rindo e tiritando em sua sunga.

— Pancho, tu és um moleirão! — exclamou Deke, satisfeito. Ajudou-o a subir para  a balsa. — Está frio demais pra você? Tudo bem?

— Tudo bem comigo! Tudo bem comigo!

Randy começou a pular como Deke havia feito, cruzando os braços sobre o peito e estômago, em um X. Os dois se viraram para as garotas. Rachel ultrapassara LaVerne, esta exibindo um estilo cachorrinho, executado por um cão de maus instintos.

— As senhoritas estão bem? — gritou Deke.

— Vá para o inferno, Senhor Machão! — gritou LaVerne.

Deke não a importunou mais. Randy olhou para o lado e viu que a curiosa mancha escura e circular estava agora mais próxima — agora a dez metros e ainda aproximando-se. Flutuava na água, redonda e circular, como o topo de um grande latão de aço, porém a maneira frouxa como se movia deixava perceber que não era a superfície de um objeto sólido. O medo, errante, mas poderoso, tomou conta dele.


— Nadem! — gritou para as garotas.

Abaixou-se para agarrar a mão de Rachel, assim que ela chegasse. Ajudou-a a subir. Ela bateu um joelho na madeira, com força — ele ouviu o baque distintamente.

— Ai! Puxa, o que...

LaVerne ainda estava a uns três metros de distância. Randy tornou a olhar para o lado e viu a coisa redonda colidir com o outro lado da balsa. Era escura como petróleo, mas Randy tinha certeza de que não se tratava de petróleo — parecia escura demais, espessa demais, regular demais.

— Randy, isso doeu! O que está fazendo, querendo divertir-se...

— LaVerne! Nade! — gritou ele.

Agora não era apenas medo; era terror. LaVerne ergueu os olhos, talvez não captando o horror, mas ouvindo a pressa. Pareceu confusa, mas intensificou seu estilo cachorrinho, encurtando a distância para a escada.

— O que há com você, Randy? — perguntou Deke.

Randy olhou novamente para o lado e viu a coisa dobrar-se em torno do canto quadrado da balsa. Por um momento, ela pareceu a imagem de um troglodita, de boca aberta para comer biscoitos eletrônicos. Depois deslizou em volta de todo o canto e começou a escorregar ao longo da balsa, com uma de suas bordas agora reta.

— Ajude-me a içá-la! — grunhiu Randy para Deke, estendendo o braço para LaVerne. — Depressa!

Deke deu de ombros despreocupadamente e pegou a outra mão da garota. Os dois a puxaram para cima, colocando-a na superfície de tábuas da balsa, apenas segundos antes da coisa negra deslizar junto à escada, os lados encovando-se, como se deslizasse por sobre os degraus.

— Você ficou louco, Randy? — perguntou LaVerne.

Estava sem fôlego, um pouco amedrontada. Seus bicos dos seios eram claramente visíveis através do sutiã, espetando o tecido em pontas duras e frias.

— Aquela coisa — disse Randy, apontando. — O que será, Deke?

Deke localizou-a. Tinha chegado ao canto esquerdo da balsa, de onde escorregara um pouco para um lado, reassumindo o formato redondo. Parecia apenas flutuar ali. Os quatro olharam para a mancha.

— Acho que é uma mancha de óleo — disse Deke.

— Você realmente machucou meu joelho — queixou-se Rachel, olhando a coisa escura sobre a água e depois se virando para Randy. — Você...

— Não é uma mancha de óleo — disse Randy. — Já viu uma mancha de óleo redonda? Isso é qualquer outra coisa.

— Nunca vi uma mancha de óleo em minha vida — replicou Deke. Falava com Randy, mas olhava para LaVerne. As calcinhas dela eram quase tão transparentes como o sutiã, o delta de seu sexo claramente esculpido em seda, cada nádega um teso crescente. — Aliás, nem mesmo acredito nelas. Eu sou do Missouri.

— Vou ficar esfolada — disse Rachel.

A raiva, contudo, desaparecera de sua voz. Tinha visto Deke olhando para LaVerne.

— Puxa, estou com frio — disse LaVerne, toda arrepiada.

— Essa coisa estava atrás das garotas — disse Randy.

— Ora, vamos, Pancho! Não disse que estava tudo bem com você?

— Ela queria as garotas — repetiu ele, teimosamente, e pensou: Ninguém sabe que estamos aqui. Absolutamente ninguém.
— Já viu uma mancha de óleo, Pancho? — perguntou Deke.

Passara o braço pelos ombros nus de LaVerne, quase da mesma forma alheada com tocara o seio de Rachel, horas antes. Não tocava o seio de LaVerne — de qualquer modo, ainda não — porém sua mão estava próxima. Randy decidiu que pouco lhe importava, de um jeito ou de outro. Aquela mancha negra e circular na água. Aquilo, sim, o deixava preocupado.

— Vi uma no Cape, faz quatro anos — respondeu. — Todos nós retiramos aves das ondas e tentamos limpá-las...

— Ecológico, Pancho — disse Deke, aprovadoramente. — Muito ecológico, yo creo.

— Era uma coisa enorme, um negócio pegajoso, estendendo-se por cima de toda a água. Em tiras e pequenos salpicos. Nada tinha de parecido com isso aí. Entenda, não era compacta.

Tinha um formato acidental, ele queria dizer. Esta coisa aqui nada tem de acidental; parece algo com objetivos definidos.

— Quero voltar agora — disse Rachel.

Ainda olhava para Deke e LaVerne. Randy leu a mágoa em seu rosto. Tinha certeza de que Rachel não percebia a transparência de sua expressão.

— Pois então, vá — disse LaVerne.

Havia um ar em seu rosto — a clareza do triunfo absoluto, pensou Randy e, se tal idéia parecia pretensiosa, também parecia exatamente correta. A expressão não era dirigida expressamente a Rachel... mas tampouco LaVerne procurava escondê-la de outra garota. Ela se moveu um passo para Deke; um passo, era tudo que havia. Agora, os quadris
de ambos se tocaram ligeiramente. Por um rápido momento, a atenção de Randy desviou-se
da coisa flutuante na água e concentrou-se em LaVerne, com um ódio quase curioso. Embora nunca houvesse agredido uma garota, naquele momento a esbofetearia com real prazer. Não porque a amasse (ficara um pouco caído por ela, sem dúvida, também mais do que um pouco sequioso dela, sem dúvida, e bastante enciumado quando a vira começando a ir com Deke para o apartamento. Claro que ficara, mas em primeiro lugar, nunca levaria uma garota a quem realmente amasse, a menos de vinte e cinco quilômetros de distância de Deke), mas por conhecer aquela expressão no rosto de Rachel — qual a sensação daquilo por dentro.

— Estou com medo — disse Rachel.

— Medo de uma mancha de óleo? — perguntou LaVerne, incrédula.

Depois ela riu. A vontade de esbofeteá-la tornou a crescer dentro de Randy, apenas girar a palma aberta no ar e atingi-la, acabar com aquela expressão de nojenta grandiosidade em seu rosto e deixar-lhe na bochecha uma marca que teria o formato de uma mão.

— Pois eu gostaria de vê-la nadar até a margem — disse Randy. 

LaVerne sorriu indulgentemente para ele.

— Ainda não estou com vontade — respondeu, como se falasse a uma criança. Olhou para o céu, depois para Deke. — Quero ver as estrelas saírem. Rachel era uma jovem baixinha e bonita mas, para uma garota, tinha um jeito ligeiramente inseguro, que fazia Randy pensar nas de Nova York — a gente as vê apressando-se para o trabalho pela manhã, usando suas elegantes saias com fendas na frente ou bem altas em um lado, com a mesma expressão graciosa. Os olhos de Rachel estavam sempre brilhantes, mas seria difícil definir se era a animação que lhes emprestava aquela vivacidade ou apenas uma ansiedade flutuando livremente.

Em geral, as preferências de Deke eram para garotas altas, de cabelos escuros e olhos tendendo para negros. Randy percebeu que agora nada existia entre Deke e Rachel — o que quer que tivesse havido, algo simples e talvez um pouco entediado por parte dele, era profundo, complicado e possivelmente doloroso para ela. Terminara, tão nítida e subitamente, que Randy quase ouviu o estalo: um som como um graveto seco, sendo quebrado com o joelho. Ele era um rapaz tímido, mas decidiu aproximar-se de Rachel e passou um braço em torno dela. Ela o fitou brevemente, o ar infeliz, mas grato por seu gesto. Randy ficou satisfeito, por haver melhorado um pouco a situação dela. A similaridade flutuou de novo em sua mente. Algo no rosto de Rachel, em sua expressão...

Associou-o o primeiro a espetáculos de jogo na TV, depois a comerciais para biscoitos, bolos, qualquer droga de coisa assim. Então lhe ocorreu — ela parecia Sandy Duncan, a atriz que atuara na reapresentação de Peter Pan, na Broadway.

— O que é aquela coisa? — perguntou ela. — O que é, Randy?

— Não sei.

Randy se virou para Deke e o viu fitando-o com aquele sorriso familiar, no qual havia mais companheirismo do que raiva... mas havia raiva nele, também havia. Talvez Deke nem mesmo se desse conta disso, mas havia. A expressão dizia Lá está o velho Randy, sempre preocupado com ninharias e estragando tudo outra vez. Presumivelmente, isso faria Randy murmurar um acréscimo — Vai ver, não é nada. Não se preocupe com isso. A coisa acabará indo embora daqui. Qualquer coisa assim. Ele não a acrescentou. Que Deke sorrisse. A mancha negra na água o assustava. Essa era a verdade. Rachel afastou-se de Randy e ajoelhou-se recatadamente na quina da balsa mais próxima da coisa e, por um momento, ela provocou uma associação de lembranças ainda mais clara: a garota nos rótulos de White Rock. Sandy Duncan nos rótulos de White Rock, corrigiu sua mente. Seus cabelos, cortados curtos e de uma tonalidade ligeiramente alourada, jaziam assentados e molhados contra o crânio belamente conformado. Podia ver as covinhas arrepiadas em suas omoplatas, acima da faixa branca do sutiã.

— Não vá cair, Rache — disse LaVerne, com visível malícia.

— Pare com isso, LaVerne — disse Deke, ainda sorrindo.

Randy desviou os olhos dos dois, em pé no meio da balsa, um com o braço frouxamente em torno da cintura do outro, os quadris se tocando de leve. Tornou a fitar Rachel. O alarme desceu velozmente por sua espinha e através de seus nervos como fogo. A mancha negra diminuíra em metade a distância entre ela e a quina da balsa onde Rachel, de joelhos, a observava. Antes, eram dois, dois metros e meio. Agora, a distância era de um metro ou menos. Randy captou a expressão estranha nos olhos da garota, uma total opacidade circular, singularmente semelhante a total opacidade circular daquela coisa na água.

Agora é Sandv Duncan sentada em um rótulo de White Rock, fingindo-se hipnotizada pelo suculento, delicioso sabor dos Biscoitos de Mel Nabisco, pensou ele, idiotamente. Seu coração aumentou as batidas, como acontecera antes na água, e então gritou:

— Saia daí, Rachel!

Depois, tudo aconteceu muito depressa — as coisas aconteceram com a rapidez de fogos de artifícios explodindo. No entanto, ele viu e ouviu cada coisa, com perfeita e infernal clareza. Cada coisa parecia presa em sua própria e diminuta cápsula. LaVerne riu. No pátio, em uma hora luminosa da tarde, soaria como o riso de qualquer garota universitária, mas ali, na crescente escuridão, mais parecia o árido cacarejo de uma feiticeira, remexendo poções no caldeirão.

— Rachel, talvez seja melhor você... — começou Deke.

Ela o interrompeu então, quase segura de si pela primeira vez na vida e, indubitavelmente, pela última.

— Isso tem cores! — exclamou ela, em um tom de absoluta admiração. Seus olhos fixavam-se na mancha negra em cima da água, com opaca euforia, e por um instante apenas, Randy julgou ter visto o que ela apontava — cores, isso mesmo, cores girando em vivas espirais que se contorciam para o centro. Desapareceram em seguida, restando apenas aquele negrume fosco e sem brilho. — Que parece cores mais lindas!

— Rachel!

Ela estendeu o braço para a coisa — espichando-o e abaixando-o — seu braço alvo e marmorizado pelos arrepios. Esticou-o, querendo tocar, e Randy notou que Rachel roera as unhas até o sabugo.

— Ra...!

Sentiu a balsa oscilar na água, quando Deke se moveu em direção a eles. Randy inclinou-se para Rachel ao mesmo tempo, querendo puxá-la e vagamente cônscio de não desejar que Deke fizesse isso. 

A mão de Rachel já tocava a água — seu indicador apenas, formando delicados círculos concêntricos na superfície — e a mancha negra avançou para aquele ponto. Randy ouviu Rachel ofegar e, de repente, a opacidade lhe abandonou os olhos, substituída por agonia. A substância negra e viscosa subiu pelo braço dela como lodo... e, por baixo, Randy viu a pele de Rachel dissolver-se. Ela abriu a boca e gritou. Ao mesmo tempo, inclinou-se para diante. Agitou cegamente a outra mão para Randy, e ele tentou segurá-la. Os dedos de ambos de roçaram. Os olhos dela encontraram os dele, e Rachel ainda mostrava uma infernal semelhança com Sandy Duncan. Depois ela caiu para diante, estatelando-se na água.

A coisa negra fluiu para o ponto em que ela caíra.

— O que aconteceu? — gritava LaVerne, atrás deles. — O que aconteceu? Ela caiu? O que houve com ela?

Randy fez menção de mergulhar atrás dela, mas Deke o puxou para trás, quase sem esforço.

— Não! — exclamou ele, em uma voz amedrontada, como jamais acontecera. Os três a viram emergir. Seus braços levantaram-se, agitando-se — não, não eram braços. Um braço. O outro estava coberto por uma membrana negra, que pendia em fiapos e dobras de algo vermelho e entretecido com tendões, algo que parecia um pedaço redondo de rosbife.

— Socorro! — gritou Rachel.

Seus olhos arregalados fixaram-se neles, desviaram-se, fixaram-se novamente, tornaram a desviar-se... eram como lanternas agitadas desordenadamente no escuro. Ela bateu na água, formando espuma.

— Socorro! Como dói! Por, favor, socorro! COMO DÓI, COMO DÓÓÓI...

Randy teria caído, quando Deke o puxou. Levantando-se das tábuas da balsa, caiu para diante outra vez, incapaz de ignorar aquela voz. Tentou saltar, e Deke o agarrou, passando seus braços musculosos pelo tórax magro do outro.

— Não, ela está morta — sussurou rispidamente. — Céus, será que não vê isso? Ela está morta, Pancho!

Uma espessa cor negra espraiou-se subitamente pelo rosto de Rachel, como um lençol, primeiro sufocando seus gritos, depois cortando-os inteiramente. Agora, a coisa negra começou a enrolá-la em cordas entrecruzadas. Randy pôde vê-las, afundando na pele de Rachel como ácido. Quando sua jugular se rompeu, esguichando um jato escuro, ele viu a coisa enviar um pseudópodo em direção ao sangue que escapava. Não podia acreditar no que via, não podia entender... mas era a pura realidade, não uma sensação de estar perdendo o juízo, nenhuma impressão de que estivesse sonhando ou fosse vítima de uma alucinação.

(continua...)

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